quarta-feira, 7 de outubro de 2026

A ÁRVORE DA CRACÓVIA

Para tentar responder àquela questão dos estudantes de jornalismo a respeito das mudanças na estrutura da disseminação de fake news, principalmente, nos últimos dez anos, precisamos recuar no tempo e olhar de maneira ampla na história da fake news. E nesse mergulho no passado nos deparamos com a palavra craque. 

Craque é uma palavra francesa, hoje em desuso, usada para designar “fake news”, mentiras, desinformação ou balela: craque ou raconter des craques, isto é, “contar mentiras”; ou ainda craquer, “mentir”. O Trésor de la Langue Française[1] registra o termo como “mentira dita para justificar ou enganar alguém”, com exemplos retirados da literatura francesa. 

A origem da expressão remonta a meados do século XVIII, sendo uma das referências mais antigas que encontrei, datada de agosto de 1742. Trata-se de uma gravura dividida em duas partes: uma superior e outra inferior.

Na parte superior, aparecem vários personagens sob uma árvore identificada pelo título “L’ARBRE DE CRACOVIE”. A legenda cria um efeito irônico ao apresentar figuras associadas à uma característica improvável: “un Cabartier qui ne frelatte point, Crac; un Marchand qui vend en Conscience, Crac” — isto é, “um taberneiro que não adultera a bebida, Crac; um comerciante que vende com consciência, Crac” e outros. À esquerda da cena, uma mulher, que lembra um anjo ou alguma entidade sobrenatural, quase nua, puxa uma corda amarrada a um grande galho, prestes a cair sobre os personagens da árvore. Na legenda, essa figura aparece identificada pelo número “1” como “a Verdade”. 

Antes, porém, de avançar na análise da gravura e de seus desdobramentos históricos, vale recuperar o que Robert Darnton, um dos principais historiadores da imprensa francesa do século XVIII diz sobre a origem do termo craque, relacionando-o a Árvore da Cracóvia. Em artigo publicado em 2000 na revista The New York Review of Books, intitulado “Paris: the early internet”[2], ele escreve:

A árvore provavelmente ganhou seu nome devido às discussões acaloradas que tiveram lugar à sua volta durante a guerra da sucessão polonesa (1733-1735), embora o nome também sugerisse a propagação de boatos (craquer relatar histórias de veracidade dúbia). Como um ímã poderoso, a árvore atraía os "nouvellistes de bouche", ou transmissores orais de notícias, que espalhavam informações boca-a-boca sobre os acontecimentos mais recentes. Esses "nouvellistes" afirmavam saber, de fontes privadas (uma carta, um criado indiscreto, uma observação entreouvida numa antecâmara de Versalhes), o que realmente estava acontecendo nos corredores do poder - e as pessoas que ocupavam o poder os levavam a sério, porque o governo se preocupava com o que os parisienses diziam. Consta que diplomatas estrangeiros enviavam agentes para buscar notícias ou plantar notícias ao pé da Árvore de Cracóvia. Havia vários outros centros nervosos desde os quais se podia transmitir "ruídos públicos" ("bruits publics")[3], como era conhecida essa variedade de notícias: bancos específicos nas Tuilleries e nos Jardins de Luxemburgo, esquinas informais em que oradores improvisados discursavam no Quai des Augustins e na Pont Neuf, cafés conhecidos pela língua solta de seus frequentadores e trechos de bulevares em que boletins noticiosos eram apresentados aos brados pelos vendedores ambulantes de "canards" (pasquins em tom jocoso) ou cantados, ao som de melodias populares, por tocadores de realejo. Para acompanhar as notícias, bastava ficar na rua e abrir os ouvidos. (Darnton, 2000)

Vinte e três anos após a publicação do artigo citado, Darnton continuou investigando a circulação de notícias no século XVIII. Em The Revolutionary Temper (2023), ele acrescenta: “‘Craque’ é uma gíria que significa notícia falsa porque, supostamente, os galhos da árvore faziam um som de rachadura sempre que um nouvelliste percebia algo descaradamente errado” (2023, p. xx).

Voltando à gravura, “L’ARBRE DE CRACOVIE”, não encontrei evidências históricas suficientes para afirmar com segurança seu significado ou sua intenção. Ainda assim, suspeito que a parte superior faça referência a uma ópera cômica escrita por Charles-François Panard (1689 – 1765) e apresentada na Feira de Saint-Germain, em Paris, em março de 1742[4]. Sabemos pouco sobre essa ópera, e não encontrei seu manuscrito nas bibliotecas digitais a que tive acesso[5]. Ainda assim, sabe-se que a peça satirizava os frequentadores da já conhecida Árvore da Cracóvia, onde aristocratas, burgueses, intelectuais e, sobretudo, nouvellistes parisienses se reuniam para trocar boatos políticos, notícias duvidosas e comentários sobre as guerras e a diplomacia europeia, inclusive sobre as notícias chegadas da Cracóvia, durante a Guerra da Sucessão Polonesa. Segundo relatos, na peça, sempre que a árvore ouvia uma mentira, um galho reagia com o som de “crac”. Isso sugere uma possível relação da ópera com a gravura, na qual a Verdade aparece manejando o galho sobre os personagens que representam as “contré-vérités”, isto é, as falsidades[6].

O que temos, portanto, é uma relação sugestiva entre nomes, datas e imagens: tanto o panfleto quanto a peça trazem o título L’arbre de Cracovie e são de 1742, embora não encontrei evidência documental para comprovar a ligação direta entre as duas obras. Ou que uma tenha inspirado a outra.

A respeito da parte inferior da gravura, há, ao centro, uma lista de outras “falsidades” (contré-vérités): um devoto que perdoa, uma burguesa satisfeita com sua condição, uma moça vaidosa e bondosa, entre outras. Ao redor dessa lista, ilustrações comentadas apresentam acontecimentos da política francesa, sobretudo de 1741 e 1742. Conforme aparecem na gravura, da esquerda para a direita:

· Débarquement de l'ambassadeur du Grand Seigneur à Toulon, 16 septembre 1741 (Desembarque do embaixador do Grão-Senhor, isto é, do sultão otomano, em Toulon, em 16 de setembro de 1741);

·  Feu d'artifice tiré à Paris sur la Seine à l'occasion de la Fête du Roy, le 24 août 1741 (Queima de fogos de artifício realizada em Paris, sobre o Sena, por ocasião da Festa do Rei, em 24 de agosto de 1741);

·  Les armées du Roy passent le Rhin, les 17, 19 et 21 août 1741 (Os exércitos do Rei atravessam o Reno nos dias 17, 19 e 21 de agosto de 1741).

·  L'élection à l'Empire de Charles Albert, duc de Bavière, à Francfort le 24 janvier 1742, et son couronnement le 12 février (A eleição para o Império de Carlos Alberto, duque da Baviera, em Frankfurt, em 24 de janeiro de 1742, e sua coroação em 12 de fevereiro).

·  Levée du siège de Carthagène en Amérique par les Anglois (Levantamento do cerco de Cartagena das Índias, na América, pelos ingleses).

·  Entrée solennelle du Nonce à Paris, le 4 juin 1741 (Entrada solene do núncio apostólico em Paris, em 4 de junho de 1741).

·  Mr le Maréchal de Maillebois reçoit la soumission des Corses au nom du Roy (O marechal de Maillebois recebe o juramento de fidelidade dos corsos em nome do rei da França).

Em suma, a parte inferior da gravura reúne uma série de eventos apresentados como triunfos da monarquia francesa: o desembarque do embaixador otomano evidencia a relevância diplomática internacional da França; os fogos da Festa do Rei celebram publicamente a glória e a popularidade de Luís XV; a travessia do Reno pelo exército francês demonstra a força militar do país na Guerra da Sucessão Austríaca; a eleição de Carlos Alberto como imperador representa uma vitória diplomática contra a influência dos Habsburgo; o fracasso inglês em Cartagena marca um revés para um dos principais rivais franceses; a entrada solene do núncio apostólico confirma o peso político e religioso da França na Europa católica; e a submissão dos corsos a Maillebois afirma a autoridade francesa no Mediterrâneo.

Diante disso, cabe perguntar: por que Antoine Humblot, autor da gravura em questão, teria colocado uma cena em que a Verdade sugere a falsidade de algo dito sob a árvore justamente acima dessas vitórias monárquicas representadas na parte inferior? Se, conforme sabemos, a peça foi apresentada em março[7] e a gravura feita em agosto do mesmo ano, teria Humblot conhecido a ópera e aproveitado seu enredo para satirizar a coroa? A hipótese é plausível: embora a França pudesse se orgulhar de algumas vitórias, nem tudo era perfeito no reinado de Luis XV, haja vista que a imprensa francesa, sob o regime absolutista, era fortemente censurada e centralizada em uma única publicação oficial, a Gazette de France. Segundo o historiador Robert Darnton:

O primeiro periódico diário da França [que não fosse o Gazzette de France] só apareceu em 1777. Era fortemente censurado, e nada em seu conteúdo podia incomodar o governo ou a Igreja. Já o periódico oficial, a Gazette de France, produzido por muitos anos pelo ministro das Relações Exteriores, trazia apenas comunicados emitidos pelo poder de Versalhes (2023, p. xx).

Sobre a vida do ilustrador e gravurista Antoine Humblot, temos pouca informação. Sabemos que ele nasceu no século XVII e morreu em 1758 e, segundo o catálogo da Biblioteca Nacional da França, foi “desenhista do Rei, gravador, editor e negociante de gravuras. A partir de 1735, residiu na Rue Saint-Jacques, na paróquia de Saint-Séverin, no estabelecimento identificado pela insígnia L'Enfant-Jésus. Em 1758, morava na Rue Galande”[8]. A ilustração mais antiga dele, que encontrei nos principais catálogos online de arte, data de 1720: trata-se de uma representação, com traços satíricos, do tumulto na Rue Quincampoix, provocado pelo colapso do sistema financeiro proposto pelo economista escocês John Law e que gerou uma bolha especulativa.

Law, um aventureiro escocês, havia convencido o Regente, o Duque de Orléans, a apoiar um projeto que combinava um banco nacional, papel-moeda, a dívida pública, a arrecadação de impostos e ativos de uma sociedade por ações nas terras distantes do Mississippi. A corrida pelas ações gerou uma bolha; a bolha estourou; centenas de pessoas perderam suas fortunas; e o Estado retornou ao antigo sistema de contrair empréstimos mediante a venda de títulos de renda pública (rentes). Até o fim do Ancien Régime, o público via o papel-moeda e as sociedades por ações com profunda desconfiança. (Darnton, 2023, p. 269)

A interpretação de Humblot sobre o tumulto ocorrido na Rue Quincampoix, no auge da “Bolha do Mississippi”, como o episódio ficou conhecido, integra uma coleção de ilustrações, canções, poemas e outras criações, publicada na Holanda, em 1720, por editores anônimos, sob o título O Grande Espelho da Loucura. O objetivo desta coletânea era ridicularizar “a propensão humana à ganância e à irracionalidade” (THE NEW YORK PUBLIC LIBRARY[9]), já que a “Bolha do Mississippi” não foi a única crise especulativa daquele período. Também estouraram bolhas como a South Sea Bubble, na Inglaterra, e a Windtrade, na Holanda. Segundo a New York Public Library, em Rue Quincampoix, Humblot,

retrata a rua como um foco de caos, luxúria e criminalidade, bem como de mistura social sem precedentes [...]. À direita, um homem é detido pela polícia no momento em que passa um objeto furtado a um comparsa; ao centro, uma mulher flerta com um homem enquanto parece roubar sua carteira. De uma janela à esquerda, o próprio John Law observa a confusão. O sino no alto anuncia a intenção de um negociante de vender. (THE NEW YORK PUBLIC LIBRARY)

Essa gravura mostra que Humblot já apresentava, desde cedo, uma veia satírica. Suas críticas, ao que parece, passaram despercebidas pela censura, visto que ele assinava como “desenhista do Rei” e, pelo que consta, não chegou a sofrer nenhuma condenação da monarquia francesa. De todo modo, deixemos essa avaliação aos historiadores. 

Humblot trabalhou em diversos gêneros: nas bibliotecas em que encontrei obras suas, aparecem mapas, retratos e paisagens. Para esta análise, porém, importa destacar que, além desses trabalhos mais convencionais, ele também se mostrou atento e engajado nos temas políticos de sua época. Por isso, é possível interpretar “L’Arbre de Cracovie” como uma sátira aos discursos oficiais e às falsidades que circulavam na sociedade francesa, possivelmente em diálogo com a ópera cômica de Charles-François Panard.

Embora não possamos afirmar se a etimologia de craque deriva de Cracóvia — em razão das notícias sobre a Guerra da Sucessão Polonesa — ou da onomatopeia “crac” — talvez popularizada pela peça de Charles-François Panard — ou ainda, talvez por outra situação a que esta pesquisa não teve acesso, é possível assegurar ao menos a existência de uma relação léxica entre Cracovie, crac e craque. 

Esta história nos permite notar que craque — ou seja, a desinformação, a manipulação de notícias e a mentira política estrategicamente disseminada – não é consequências do jornalismo, e menos ainda um problema novo da imprensa moderna, mas é parte das condições fundantes do jornalismo tal qual o conhecemos hoje. 

Como vimos, no período em que a peça teatral e a gravura A Árvore da Cracóvia foram produzidas, o único periódico de notícias na França era a Gazette de France, este controlado pelo ministro das Relações Exteriores, ou seja, totalmente submetido a vontade monárquica. O primeiro diário francês regularizado e independente da manarquia, o Journal de Paris, só surgiria cerca de trinta anos depois, em 1777. Até então, as notícias circulavam de modo mais ou menos clandestino: oralmente, por manuscritos (nouvelles à main) ou por impressos não oficiais. Como enfatiza Robert Darnton:

Frequentemente dizemos que vivemos na era da informação, no entanto, todo período da história é uma era da informação — cada um à sua maneira — e, no século XVIII, Paris estava saturada de informações transmitidas por um sistema multimídia peculiar àquela época e àquele lugar. (DARNTON, 2023, p. xix)

Darnton refere-se aos encontros em cafés, às cópias de documentos oficiais transformados em nouvelles à main, aos boletins impressos que circulavam sous le manteau (“por baixo do manto”) ou mesmo às canções e teatros locais apresentados em praça pública. Além das notícias políticas, os parisienses também se entretiam com fofocas de personagens públicos como atores e atrizes e sabiam que “o ridículo era uma arma poderosa, como indicam as observações comuns sobre a importância de ter o riso a seu favor” (DARNTON, 2023, p. xxi).

A Árvore da Cracóvia era apenas um dos pontos de disseminação de notícias e, como ela, outros lugares públicos eram famosos dentre os nouvellistes como, por exemplo, os bancos do Jardim de Luxemburgo ou os jardins de Tuileries. Mas foi a árvore – talvez pelo trocadilho possível com as palavras crac e Cracovie – que carregou a maior fama na História. E mesmo depois que ela já havia sido derrubada, o termo continuou sendo usado e, é ele mesmo – a história da Árvore da Cracóvia – um assunto de como a informação vai sendo distorcida e pode se tornar desinformação. Talvez não por manipulação, mas por deturpação no tempo.

Afirmo isso pois quando iniciei esta pesquisa as primeiras fontes que encontrei na internet me levaram a crer que a expressão havia sido cunhada durante o período da Partilha da Polônia, que teoricamente, teve início em 1772. Veja que interessante: depois, descobri que não se tratava da Partilha da Polônia, mas da Guerra da Sucessão Polonesa, 30 anos antes. Segundo essas primeiras fontes que acessei na internet, a história começa parecida: havia uma grande árvore nos jardins do Palais-Royal, em Paris, onde membros da corte francesa e habitantes da região se reuniam para trocar notícias sobre o que acontecia no front polonês. A França acompanhava os desdobramentos da partilha, já que a Polônia era uma zona estratégica de influência da Europa Ocidental diante do avanço russo. Por isso, a árvore ficou conhecida como L’arbre de Cracovie (“Árvore da Cracóvia”).

Entre os registros históricos que apresentam a versão da origem do termo craque relacionando a Partilha da Polônia (não da guerra da sucessão polonesa) está o livro L’Ingénue (1850), de Alexandre Dumas. Sendo evidente que o escritor extraiu a informação de uma enciclopédia de conhecimentos gerais bastante conhecida em sua época, o Dictionnaire de la conversation et de la lecture[10], embora, como somos levados a crer, essa fonte pode não ter sido rigorosamente confiável. E, ainda, ao comparar o verbete com o trecho do romance, é possível até insinuar um plágio, ipsis litteris, por parte de Dumas[11].

A árvore de Cracóvia era, segundo alguns, uma tília, outros uma castanheira-da-índia; os arqueólogos divergem sobre esta importante questão, que não tentaremos resolver.

Em todo caso, era uma árvore mais alta e frondosa, que proporcionava mais sombra e frescor do que todas as outras árvores ao redor. Em 1772, durante a primeira partilha da Polônia, era sob esta árvore que os fofoqueiros se reuniam ao ar livre e os políticos ao vento. Normalmente, o centro do grupo que discutia a vida e a morte desta nobre e paciente mulher, crucificada por Frederico e Catarina e abandonada por Luís XV, era um abade que, por ter ligações com Cracóvia, atuava como disseminador de todos os rumores vindos do norte da França. Além disso, como este abade era aparentemente um grande estrategista, ele constantemente e oportunamente mobilizava um exército de trinta mil homens, cujas marchas e contramarchas despertavam a admiração de seus ouvintes. 

Como resultado, o abade estrategista recebeu o apelido de Abade dos Trinta Mil Homens, e a árvore sob a qual executava suas manobras hábeis, o de Árvore de Cracóvia.

Talvez as notícias que anunciava com a mesma facilidade com que manobrava seu exército — notícias que às vezes eram tão imaginárias quanto o próprio exército — também tenham contribuído para que essa árvore ficasse conhecida por seu nome, quase tão gascão quanto polonês.

De qualquer forma, a Árvore de Cracóvia, que permaneceu de pé apesar das mudanças feitas no Palácio Real pelo Duque de Orléans, continuou sendo o centro de encontros, não menos numerosos no Palácio Real em 1788 do que em 1772; só que, não era mais a Polônia que preocupava as pessoas sob a Árvore de Cracóvia: era a França.[12]

Neste romance, que combina ficção e história, Alexandre Dumas inclui entre seus personagens Jean-Paul Marat. Figura histórica central da Revolução Francesa, Marat foi um dos principais líderes jacobinos e editor do jornal L’Ami du Peuple (O Amigo do Povo). Durante os períodos de maior censura à imprensa pela monarquia francesa, Marat continuou publicando clandestinamente e utilizou seu periódico tanto como instrumento de propaganda jacobina, tanto como veículo para divulgar denúncias e rumores contra adversários políticos. Chegou, inclusive, a publicar listas contendo os nomes de supostos traidores da Revolução. Sua morte inspirou uma das pinturas mais famosas do período, A Morte de Marat, que o retrata em sua banheira logo após ser assassinado por Charlotte Corday, uma girondina que o responsabilizava pelo Massacre de Setembro de 1792, episódio que resultou em cerca de 1.500 execuções entre os dias 02 e 06 daquele mês.

Republicano, Alexandre Dumas era filho de um general ligado ao jacobinismo, mas mantinha uma posição moderada e criticava a “epidemia de decapitações” associada à influência de Marat durante a Revolução. Seu romance, em parte, constitui uma crítica a esse período. No entanto, é possível que o próprio Dumas tenha sido, simultaneamente, vítima e propagador de desinformação ao abordar a origem do nome da Árvore de Cracóvia relacionando-a a Partilha da Polônia e não da Guerra da Sucessão Polenesa.

Embora seja amplamente aceito que a mentira e a manipulação da informação existam desde o surgimento da linguagem humana, a história da Árvore de Cracóvia merece atenção porque, enquanto símbolo de uma época e de uma prática social, evidencia como a informação pode ser uma das armas mais poderosas de uma sociedade. Sua trajetória ajuda a compreender por que temas como liberdade de expressão, censura e regulamentação dos meios de comunicação continuam despertando debates intensos até os dias atuais. A árvore representava um local anômalo, desregulamentado, onde qualquer notícia poderia ser disseminada, sem maiores apurações, assim como acontece na contemporaneidade na gigante praça pública das redes sociais. 

A história da árvore termina com uma ironia singular. Lembra-se da gravura de Humblot, na qual uma figura escondida entre os galhos agia sempre que uma mentira era contada? Segundo uma narrativa amplamente difundida, em 1779 — cerca de trinta e sete anos após a ópera de Panard e a gravura de Humblot — parte da árvore desabou, quase atingindo alguns dos nouvellistes que costumavam reunir-se sob sua copa. Algumas versões chegam a afirmar que os galhos efetivamente caíram sobre eles. É justamente nesse ponto que a história oferece uma valiosa lição sobre pesquisa e circulação de informações.

A primeira vez que me deparei com a informação de que a árvore teria caído sobre seus frequentadores — conclusão a que cheguei após uma investigação própria, sem pretensão de estabelecer uma verdade definitiva, mas baseada em pesquisa cuidadosa — foi na Wikipédia. Sei, contudo, que, embora seja a enciclopédia mais popular do século XXI, nenhuma pesquisa séria deveria tomá-la como fonte principal e, menos ainda, como fonte única. Seguindo as referências indicadas, encontrei a mesma história — a de que parte da árvore desabou e possivelmente atingiu alguns nouvellistes — em uma nota de rodapé do poema Les adieux à l’Arbre de Cracovie (“Adeus à Árvore de Cracóvia”), datado de 1781 e atribuído a um autor (ou autora) identificado como “De Beaumont”. Essa atribuição, entretanto, não aparece na coletânea em que o poema foi publicado, o Chansonnier Historique du XVIIIe siècle (1884), organizado por Émile Raunié. A nota informa: “Esta árvore havia caído até três quartos de seu comprimento em junho de 1779 e quase esmagado cerca de vinte nouvellistes em sua queda; desde então, não passava de um tronco disforme”.

Na referida coletânea consta apenas o ano do poema. A atribuição a De Beaumont surge no catálogo do British Museum, utilizada para contextualizar uma gravura que mostra um tronco da árvore tombado sobre um homem enquanto outras pessoas observam a cena com espanto. A imagem, produzida por E. Lepagelet e intitulada Chute de l’Arbre de Cracovie (c. 1781), traz a seguinte inscrição: “Se vimos cair os maiores potentados; se vimos cair os Estados mais poderosos; assim cai a nossa árvore, juntamente com seis amigos políticos... Choremos pelo destino da nossa República”.

Ao considerar o poema e a gravura em seu contexto histórico, passei a suspeitar que a ideia da árvore atingindo seus frequentadores talvez funcione mais como uma metáfora satírica do que como o relato de um acontecimento factual. Trata-se, no entanto, de uma especulação minha. Sustento essa leitura pelo fato de que a coletânea em que o poema foi preservado possuía caráter oficial e foi produzida em um momento em que, embora os primeiros sinais da crise do Antigo Regime já fossem perceptíveis, a Revolução Francesa ainda estava distante. Nesse contexto, a imagem dos nouvellistesesmagados pela própria árvore poderia representar uma forma de escárnio dirigida àqueles que viviam de rumores e comentários sobre a nobreza, recurso retórico semelhante ao tom jocoso frequentemente empregado por publicações quando procuram ridicularizar seus adversários.

Quanto à gravura que representa a queda da árvore, não saberia dizer quem seriam os seis políticos mencionados como tendo caído junto com ela. Ainda assim, a cena me parece mais próxima de uma metáfora caricatural do que da representação de um acontecimento literal.

Tudo indica que parte da árvore realmente desabou em 1779 e que, em 1781, o que restava dela foi removido para permitir as reformas promovidas pelo Duque de Orléans nos jardins do Palais-Royal, onde seriam abertas novas alamedas e construções. O episódio foi registrado nas Memórias do dramaturgo Carlo Goldoni que, como veremos, era a favor da reforma do jardim:

Cada árvore que tombava feria profundamente a alma dos espectadores; por acaso, presenciei a queda da "Árvore de Cracóvia" — aquela magnífica castanheira que costumava reunir ao seu redor os ávidos por novidades, tendo testemunhado por muito tempo a curiosidade, os debates e as mentiras deles. Abri caminho pela multidão e tive a sorte de conseguir um galho que ainda conservava as folhas, o qual levei imediatamente para a casa de um conhecido; vi senhoras à beira das lágrimas e homens furiosos, todos vociferando contra o destruidor. Contudo, eu ria por dentro; depositava grande confiança no plano, e não me enganei. (GOLDONI, 1787, p. 242-243)

Assim terminou a história dessa enorme castanheira. Além dos rumores que floresceram à sua sombra, a própria árvore tornou-se, ao menos para mim, um exemplo de como narrativas podem ser distorcidas e instrumentalizadas. Seja por meio de gravuras, poemas ou relatos literários, ela serviu para legitimar posições políticas distintas e transformar interpretações em fatos socialmente aceitos, contribuindo para a construção da realidade de seu tempo.

Se a monarquia desejava ridicularizar os propagadores de boatos, bastava representá-los sob a árvore. Da mesma forma, quando críticos do regime pretendiam satirizar a aristocracia, era novamente a árvore que surgia como cenário simbólico. Nesse sentido, ela antecede o jornalismo moderno como um emblema da disputa em torno da informação e da credibilidade pública. 

Por fim, a própria derrubada da árvore, realizada no contexto das reformas do Palais-Royal, também pode ser interpretada simbolicamente: como uma tentativa de eliminar não apenas um velho castanheiro, mas o espaço de circulação de rumores e notícias extraoficiais que ele havia representado durante décadas.



[1] http://stella.atilf.fr/Dendien/scripts/tlfiv5/advanced.exe?8;s=4144560645;

[2] <https://www.nybooks.com/articles/2000/06/29/paris-the-early-internet/>. Este artigo foi traduzido pela Folha de São Paulo, sob o título “Rede de intrigas e está disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3007200003.htm>

[3] Veja que antes mesmos do termo craque, já existia um anterior, “ruído público”.

[4] L'Arbre de Cracovie: Le mythe polonais dans la littérature française (François Rosset, 1998)

[5] No momento, também não tenho disponibilidade de viajar à Europa em busca desse manuscrito, caso ele ainda exista.

[6] A maior ironia de todas está no fato de que existem registros de que, de fato, em junho de 1779 a árvore caiu quase atingindo cerca de vinte nouvellistes. https://books.google.com.br/books?id=ReYIAAAAQAAJ&pg=PAPA9&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false  Retomaremos esse episódio mais adiante.

[7] Um catálogo manuscrito disponível na Biblioteca Nacional da França registrando "L'Arbre de Cracovie, prose et vaud., 11 mars 1742.". a nomenclatura “prose et vaud.” designam o tipo de apresentação marcada pela prosa e vaudeville, ou seja, um gênero de teatro que mistura comédia e números musicais.

[9] https://www.nypl.org/events/exhibitions/galleries/empire-imagination/item/11043

[11] Caberá a você leitor avaliar a minha insinuação verificando as referências aqui disponibilizadas tanto da enciclopédia tanto do romance.

[12] Não encontrei uma edição oficial traduzida para português, portanto inseri este trecho traduzido por mim. 

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