Para iniciar qualquer comentário a respeito desta obra merecedora do Framboesa de Ouro, precisamos, primeiramente, fazer algumas distinções conceituais.
Para a Psicanálise, toda realidade é psíquica e encontra-se estruturada pela fantasia, sendo necessário distinguirmos, também, realidade de fatos:
A realidade é, aquilo que podemos dizer sobre o mundo que nos cerca a partir de nosso repertório simbólico. Fatos são acontecimentos que independem de nossa leitura para existirem: um furacão, o resultado numérico de uma eleição, nascimento e morte. Fatos como estes compõe, o que Lacan situou como alguns dos fenômenos do registro do Real, são ocorrências que independem da linguagem para atravessar a experiência humana, diferente do que chamamos de realidade. A realidade é como contamos, narramos e, assim, compartilhamos a experiência de estarmos no mundo; a realidade é o que faz laço social. Conforme o filósofo Slavoj Zizek argumenta, seguindo a psicanálise lacaniana, “... a fantasia não se opõe à realidade, mas fornece as coordenadas do que experimentamos como realidade, bem como as coordenadas do que desejamos” (Zizek, p. 408).
Resumidamente, podemos diferenciar fatos, realidade e fantasia: fatos são acontecimentos que prescindem da simbolização; realidade é narrativa compartilhada a respeito de fatos circunstanciais; e fantasia é a estrutura psíquica responsável por sustentar o desejo do sujeito frente a realidade composta por fatos que se impõe.
Como vemos, há uma relação estreita entre esses conceitos, e a consequência disso é que, quando algum elemento fantasioso – e, portanto, atrelado ao desejo – diverge substancialmente dos fatos, tal fantasia é posta em xeque, deparando o sujeito com sua angústia. Dito de outra forma, se os fatos que constituem a realidade se opõem ao desejo que estrutura a fantasia, essa fantasia não se sustenta, na medida em que esta última requer um tanto de realidade para não se tornar puro delírio.
Vale a pena esclarecer, então a fiferença entre fantasia e delírio com base em Freud, no texto “A perda da realidade na neurose e na psicose” (1924). Ali, a fantasia aparece como uma defesa neurótica diante das frustrações impostas pelo mundo, enquanto o delírio surge como uma defesa psicótica. Segundo Freud, “na neurose uma porção da realidade é evitada mediante a fuga [por meio da fantasia], enquanto na psicose [a realidade] é remodelada” (1924, p. 217). Na neurose, o Eu compensa o prazer reprimido por meio da fantasia, o que enfraquece sua relação com a realidade. Já na psicose, o Eu rejeita a realidade e constrói um delírio, podendo inclusive produzir alucinações para sustentar essa realidade delirante que protege o sujeito psicótico de uma ideia vivida como insuportável.
Por fim, se a fantasia é uma formulação que permite um certo lastro do sujeito com a realidade, quando há um rompimento entre fantasia e realidade, o sujeito vive uma certa experiência de perda do sentido da realidade, ocasionando em angústia. Realidade esta, como já disse, constituída por meio da linguagem e aceita, de maneira mais ou menos, consensual pela sociedade em geral.
Recentemente, me deparei com a seguinte frase de David Lynch: “Que momento ótimo para estar vivo se você ama o teatro do absurdo”. A observação expressa bem a sensação, hoje amplamente difundida, de que a realidade se tornou mais estranha do que a ficção. Passamos a assistir a debates tão destoantes que colocam em dúvida consensos científicos e históricos que pareciam já consolidados, dificultando o avanço na discussão de temas urgentes, como a crise climática e o aumento da desigualdade social.
Na última década, fomos arrastados para debates absurdos: o formato da Terra, a classificação ideológica do nazismo, a falsa relação entre vacinas e autismo, a negação da crise climática, entre outros. Fomos bombardeados por desinformação e teorias da conspiração de toda espécie. A realidade passou a parecer mais estranha que a ficção, povoada por figuras caricatas que espalham disparates e alimentam surtos coletivos. É o caso dos therians, que se comportam literalmente como animais; dos incels, homens que defendem o celibato por frustração com as mulheres; e da proliferação de diagnósticos psiquiátricos convertidos em identidade, como pessoas que se apresentam socialmente como “autistas”, “TDAH” ou “borderline”.
Seja como efeito das tecnologias, do cientificismo — distinto da Ciência — ou da pós-modernidade, o fato é que esse surto coletivo se instaurou. O que vivemos foi um retrocesso do pensamento, impulsionado pela distorção das narrativas, que bloqueou qualquer possibilidade de uma guinada progressista para a humanidade. Ficamos presos a polêmicas que alimentam a polarização – favorecendo a ascensão de líderes populistas – e impulsionam debates online – fortalecendo mecanismos de vigilância e controle, não apenas do Estado, mas, sobretudo, das Big Techs. Tudo isso, evidentemente, ameaça a democracia.
A lista de absurdos é extensa e continua crescendo. Se por um lado ainda fico abismada, por outro, já não me surpreendo muito. Aos poucos, acabei me acostumando com esses surtos coletivos e os aceitei como o “novo normal”, lendo essas loucuras diárias quase como quem acompanha um relato ficcional do apocalipse — afinal, psicanalista que não se interessa pela loucura está sentado na poltrona errada. Porém, imaginava que já não houvesse mais nada a dizer sobre a pós-verdade, tema da minha tese de doutorado. Até aparecer o filme Dark Horse.
É verdade que as consequências de uma produção como essa talvez não sejam tão graves quanto a desinformação que, por exemplo, sustentou o genocídio em Gaza entre os anos de 2024 e 2025. Ainda assim, pela proximidade do caso e até por uma certa comicidade dos atos falhos do mandante que expuseram o golpe financeiro, considerei válido retomar a discussão sobre a pós-verdade e seus desdobramentos recentes. Parece que algo ainda me mobilizava nesse campo.
Concomitantemente ao anúncio do filme e a exposição dos áudios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, por acaso, uma dupla de estudantes de jornalismo encontrou minha tese e me convidou para uma entrevista sobre como a pós-verdade pode se relacionar com fenômenos atuais, como a inteligência artificial, os brainrots e o caso Ypê. O interesse desses estudantes pela minha pesquisa me fez perceber que esse tema está longe de ter se esgotado, e reforçou meu ímpeto em escrever essas linhas.
A entrevista aconteceu e acabou se enveredando para o assunto que estava me interessando mais: o filme. E durante a conversa percebi que a geração Z (encarnada por esses dois estudantes) está tão perdida como eu estava há dez anos quando comecei a buscar algum sentido em todo esse nonsense. Além disso, uma das perguntas que eles me fizeram foi se eu percebia alguma diferença no modo como a pós-verdade operava quando escrevi a minha tese e hoje. Uma pergunta que de certa forma povoava o meu inconsciente, mas eu ainda não havia formulado para mim mesma conscientemente. Essa pergunta eu não consegui responder a eles na hora e parte do presente trabalho e tentar respondê-la.
Outro motivo importante para eu estar aqui, agora, escrevendo este texto é que o filme me pareceu um exemplo clássico do que Žižek poderia usar para mostrar como a ideologia reveste a estrutura capitalista com uma narrativa que nos faz agir como se o capitalismo nos servisse, quando, na verdade, somos nós que servimos a ele.
Em 2012, Žižek apresentou o documentário O guia perverso da ideologia, de Sophie Fiennes, no qual comenta o filme Eles vivem (1988). Nele, o protagonista encontra uma caixa de óculos escuros que funcionam como “óculos da crítica ideológica”. Ao colocá-los, ele passa a enxergar a mensagem real por trás da propaganda. Por exemplo, sem os óculos, você vê um outdoor com uma mulher bonita bebendo Coca-Cola. Com os óculos, porém, surge apenas um fundo preto com a palavra CONSUMA, em letras brancas garrafais. O mesmo pode ocorrer com a propaganda de um jovem sorridente vestindo uniforme militar: sem os óculos, trata-se de um anúncio comum; com eles, o que aparece é um fundo preto com a palavra OBEDEÇA. Em ambos os casos, a publicidade usa imagens de identificação e promessa de prazer para induzir o consumo ou a submissão. No primeiro, a figura da mulher bonita sugere que beber Coca-Cola é algo desejável e prazeroso; no segundo, o uniforme militar associa o serviço pela pátria à ideia de realização e felicidade juvenil.
Para Zizek, ideologia não é uma crença, mas uma prática cotidiana na qual todos participamos. Isso significa dizer que a ideologia prescinde da crença: posso saber que para uma mulher manter o padrão de beleza e saúde mostrado no anúncio, a última coisa que devo beber é uma Coca-Cola. Mesmo assim, eu a consumo. Posso saber que o serviço militar é mal pago, pesado e perigoso, e mesmo assim eu me alisto. Isso demostra o que o que Zizek chama de cinismo ideológico, uma atitude análoga a célebre formulação psicanalítica sobre a lógica do perverso: “eu sei que não devo, mesmo assim eu faço”.
Assim, a ideologia opera encobrindo aquilo que está subjacente para seguir adiante com uma prática. Como Zizek esclarece no livro Ateísmo Cristão – como ser um verdadeiro materialista (2024):
“Por exemplo, a ideologia capitalista promete satisfação pessoal na forma de consumo, apresentando a exploração e a corrupção como fatores secundários e contingentes, não como algo que perpetua a noção mesma de capitalismo. Em outras palavras, ideologia não apenas eleva algo contingente ao patamar da necessidade, mas também descarta como um desvio contingente algo que pertence à necessidade constitutiva de um determinado espaço.” (p. 76)
Não é justamente isso que se torna visível quando o repórter da Intercept Brasil divulga os áudios em que Flávio Bolsonaro cobra de Daniel Vorcaro o dinheiro prometido? O filme, que pretendia apresentar Jair Bolsonaro como mito anticorrupção, era financiado com recursos ligados a um dos maiores esquemas de corrupção do país: o caso do Banco Master. A ironia é evidente quando se lembra que a direita acusou repetidamente a classe artística brasileira de usar verbas públicas, por meio de mecanismos como a Lei Rouanet, para financiar produções supostamente alinhadas à esquerda. “A mamata vai acabar” tornou-se, inclusive, um dos slogans da campanha bolsonarista de 2018.
Ao responder às acusações de uso de dinheiro público no financiamento do filme, Flávio Bolsonaro tentou minimizá-las afirmando que sua participação se limitou à busca de investimento privado e que sua relação com Vorcaro dizia respeito apenas ao papel de filho que queria homenagear o pai. O pronunciamento reúne, de uma só vez, duas pautas coerentes com sua posição ideológica: a defesa do livre uso do dinheiro privado e a imagem do bom filho da família tradicional. Ao mesmo tempo, encobre dois pontos centrais: que esse dinheiro “privado” teria origem nos cofres públicos e que a “homenagem” ao pai estava prevista para estrear às vésperas da eleição em que esse mesmo bom filho disputaria a Presidência da República.
Os fatos mostrados pela Intercept Brasil mais uma vez apontaram para a deterioração da imagem fantasiosa do mito salvador, reforçando indícios anteriores de corrupção que, apesar de tantas evidências, tentaram ser justificados e varridos para debaixo do tapete: “rachadinhas”, loja da Kopenhagen, as joias sauditas, os imóveis comprados com dinheiro vivo e o relacionamento da família com milicianos.
Como em um ato falho, a verdade escapou pelo WhatsApp da boca do próprio senador — provavelmente pelo celular de Vorcaro, apreendido pela polícia junto com seus computadores e telefones. Depois, em uma coletiva de imprensa, ao ser confrontado pelo repórter da Intercept com a revelação do vínculo com o banqueiro criminoso, Flávio Bolsonaro reagiu com risos – mais ou menos como quando nos percebemos fazendo um ato falho – que tentavam disfarçar o impacto de ser pego de surpresa: “Militante, não dá, cara!”, disse, antes de virar as costas para os jornalistas.
Até o momento em que escrevo, a revelação da relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro prejudicou significativamente a candidatura do senador. Ainda assim, para uma parcela expressiva da população, a imagem da família Bolsonaro como representante dos “cidadãos de bem” segue preservada. Essa representação se associa a militares, evangélicos, ruralistas e outros grupos alinhados a pautas de costumes conservadores e à economia liberal.
Isso porque a dissolução da “fantasia fundamental” – a ideia do mito – posiciona o sujeito – diante da perda do sentido da realidade – numa relação direta com sua angústia e, assim, esses grupos encontram toda espécie de argumentos para negar a obscenidade inerente ao mito e evitar o desconforto da realidade.
Para Freud, a fantasia é uma cena psíquica imaginária na qual um desejo encontra satisfação. Nesse caso, trata-se do desejo de que um líder político resolva o problema generalizado da corrupção no Brasil por meio da virilidade, da audácia e da simplicidade que compõem sua imagem pública. Trata-se de um desejo infantil e primitivo, próprio de uma criança perverso-polimorfa, cuja fantasia narcísica de onipotência se sustenta na crença de que o pai-herói pode protegê-la de tudo. A regressão do adulto fixado nessa posição infantil está em não admitir que esse pai não é onipotente, isto é, que ele é castrado. Em certa medida, esse adulto também recusa a própria castração: “se ele — meu pai — não é castrado, eu também posso não ser”. Em termos lacanianos, trata-se da recusa em admitir que o Outro é faltante e que não existe uma autoridade capaz de eliminar completamente o desamparo humano.
Assim, a obscenidade perversa está em recusar a impotência deste pai por meio da invenção de que existe um grande inimigo que deve ser aniquilado para que a harmonia seja alcançada. O inimigo, no caso do filme é o comunismo. Porém, durante a campanha e o governo do Bolsonaro; o inimigo se personificou de formas: a mulher, o gay, as instituições de regulamento estatal, a ciência, o Paulo Freire, os ambientalista, etc. Retomaremos essa construção tipicamente fascista, reeditada para a atualidade, mais adiante.
É curioso notar como a teoria freudiana da fantasia aparece na psicologia das massas. Assim como o erotismo depende de imaginar que nosso desejo pelo outro será satisfeito, o líder precisa construir uma narrativa de compromisso para manter seus seguidores engajados Do mesmo modo que a fantasia, a base narrativa desse tipo de liderança pressupõe o desejo alheio, que sempre, segundo a psicanálise, é o desejo de ser desejado. O líder se destaca porque arrisca a própria vida por nós, demonstrando um desejo tão intenso que chega a sacrificar-se. Essa lógica é tão direta que costuma passar despercebida. Contudo, sob a trama da narrativa que molda a figura do líder, há apenas um indivíduo tentando capiturar nossa atenção. Analogamente, em relações afetivas, onde se acredita que o parceiro nos satisfaz, a realidade é que cada pessoa busca primeiro a satisfação de ser desejada[1].
Esse funcionamento aparece não apenas no contexto político. Como sabemos, o contexto religioso está cheio desses líderes. Conheço um, de bata e barba branca, que se dirige aos seus seguidores, com olhar e voz suave, dizendo “meus amoooores....”. Sim.. com essa leve prolongada vogal para manter os olhares um tempinho a mais nele.
Fiquei imaginando o que Žižek teria a dizer sobre o filme Dark Horse e os desdobramentos dessa produção digna de uma Framboesa de Ouro — eis aí mais um prêmio internacional para o brasileiro ambicionar. O resultado desse exercício me pareceu tão óbvio que concluí que Žižek provavelmente delegaria a tarefa à sua estagiária — no caso, eu, na minha fantasia de ser estagiária do Žižek.
“Por que a estrutura da fantasia atrai tanto as pessoas? – ele nos perguntaria.
Para Zizek, o filme é claramente uma peça de propaganda ideológica e desta forma, enquanto fundamentado na ideologia bolsonarista, opera através das fantasias que organizam a realidade e o desejo dos seguidores de Bolsonaro. Assim, o filme Dark Horse reforça a ideia de um mito nacional redentor, no qual os atos heroicos – como enfrentar o crime organizado, que no contexto do filme é associado ao comunismo – definem seu destino como paladino da pátria. A facada é apresentada não só como um atentado político, mas como um evento que evidencia o temor do sistema diante dele, colocando-o como símbolo de autenticidade em oposição ao establishment e atribuindo a ele não apenas o papel de patriota, mas também de soldado na luta contra a corrupção.
Essa é uma estratégia recorrente tanto da propaganda populista quanto do “cinemão” hollywoodiano: simplificar e intensificar contradições sociais — “bandido versus herói”, “elite corrupta versus trabalhador honesto” — enquanto se carregam as tintas das cenas emotivas para transformar conflitos históricos em dramas pessoais apelativos. No filme em questão, um exemplo evidente aparece no trailer, na cena em que Bolsonaro, ferido após a facada, é carregado sobre a multidão com os braços abertos, numa composição visual que remete diretamente à imagem de Jesus crucificado.
Outra característica tipicamente populista ilustrada pelo filme, está condensada na figura de Aurélio Barba – personagem que representa Adélio Bispo, verdadeiro autor da facada na vida real. Aurélio é um comunista, envolvido com o tráfico de drogas que, em nome da revolução, esfaqueia Bolsonaro. Nos termos do funcionamento da ideologia ele o outro que desestabiliza a harmonia a , a ideologia nazista precisa da figura do judeu enquanto agente que introduz a discórdia e o desequilíbrio social, justificando então o anti-semitismo e velando a causa real do não é imanente a sociedade de classes, como é para o marxismo onde a relação entre classes é, por definição, de discórdia e desequilíbrio, de modo que a única maneira de abolir o antagonismo é abolir as classes como tal” (2022, p. 220). No fascismo o desequilíbrio é produto de um agente que “perturba a cooperaração de classe através de seu comportamento excessivo”. No nazismo, por exemplo, a figura que introduz a discóridia é o judeu, de modo que se deve liquidar o judeu e assim restabelecer o justo equilíbrio da classe” (2022, p. 220). No filme, condensa-se
[1] Esse funcionamento não aparece apenas no campo político. O universo religioso e midiático também estão repletos dessas figuras carismáticas que transformam a própria imagem em objeto de devoção. Conheço um deles — bata branca, barba cuidadosamente cultivada, voz mansa — que às vezes se dirige aos ouvintes dizendo: “meus amoooores…”. Sim, com a vogal longamente esticada, como quem prolonga a palavra apenas para sustentar por mais alguns segundos o olhar hipnotizado dos fiéis sobre si mesmo. Ao fazer o seu público se sentir amado, ele retém o capital do desejo para si.



