sábado, 24 de janeiro de 2026

O MONSTRO DO PÂNTANO - ENTRE A NATUREZA E O DESEJO

    As histórias em quadrinhos sempre fizeram parte da minha vida: começando pela Turma da Mônica, depois, as tirinhas na Folha de São Paulo – Los três amigos + Adão Iturrusgarai –, em seguida tive uma fase devoradora de Calvin e Haroldo e, mais tarde, por influência da Velha (sempre ela...), as HQs mais “alternativas”. Porém, foi só recentemente que tive contato com as histórias de super-heróis. 

    Então, no último Natal ganhei um presente do Thomas que me surpreendeu:  uma coletânea com sete edições de “O Monstro do Pântano”. Apesar de ser um personagem mais antigo, essas edições são o início de uma revisão da história do Monstro feita em 1984, por Alan Moore, roteirista considerado um dos maiores do gênero. Mas, não digo isso por conhecimento de causa, e sim porque foi como o Thomas me apresentou ao livro: “Mãe, esse cara é um dos melhores. Ele escreveu ‘Watchmen’ e ‘V de Vingança’. É muito bom, você precisa ler.” Para ser sincera, além de ver um pôster do “Watchmen” pendurado no quarto do Thomas, eu mal sei do que se trata, e só sei do “V de Vingança” devido ao Anonymous. Mas a empolgação do meu filho me convenceu e resolvi encarar o presente que, para minha surpresa, gostei!

 

    Porém, o que mais capturou a minha atenção não foi tanto os enredos – com supervilões, a Liga da Justiça e até entidades sobrenaturais em uma mistura de horror com ficção científica. O que gostei mesmo foi a origem e os superpoderes do Monstro, que, em inglês, não se chama Monstro do Pântano, mas sim The Swamp Thing – ou seja, A Coisa do Pântano, que acho mais compatível com a ideia da história. Isso porque, depois de ler, fui pesquisar um pouco a respeito do personagem e descobri (pois nem tudo está ali naquelas sete histórias da coletânea) que esse “monstro”, “coisa”, é um ser do Verde – “um reino etéreo habitado pelas mentes coletivas do Parlamento das Árvores”. O Verde é “uma das forças elementais do universo, inerente e conectada a todas as formas de vida vegetal. É uma força de energia cósmica que anima toda a vida vegetal no universo, no Multiverso e talvez no maior Omniverso.”  Já, o Monstro do Pântano é uma formação com características humanas que emergiu do pântano quando O Verde precisava de proteção, colocando em cena a dualidade entre a força da natureza e o desejo humano, uma vez que ele é ao mesmo tempo uma entidade vegetal e um portador de uma consciência humana. 

 

    Vamos ao resumo dessa história meio psicodélica:

 

    Resumidamente, o cientista botânico Alec Holland estava desenvolvendo, com sua espessa Linda, uma “fórmula biorrestauradora destinada a incrementar colheitas” quando seu trabalho foi sabotado, causando uma explosão no laboratório e arremessando Alec junto com fórmula para longe. “Holland e sua sopa química caíram no pântano onde o laboratório ficava”. 

 

    O pesquisador sumiu nas profundezas do lamaçal e aos poucos, na medida em que o seu corpo se decompunha, outro corpo, constituído das fibras vegetais integradas naquele lodo, replicavam o DNA e a consciência de Holland. Dessa forma, originou-se o Monstro do Pântano, um ser clorocinético: ou seja, um ser com poderes relacionados ao reino vegetal, como a manipulação telepática de plantas, a autorregeneração e a capacidade de transitar entre dimensões do tempo-espaço por meio da rede vegetal. 

 

    Essa relação íntima do Monstro do Pântano com a natureza o tornou um defensor implacável do meio ambiente, recorrendo a métodos muitas vezes desfavoráveis à vida humana para proteger o reino vegetal e, por isso, fazendo dele um anti-herói e um alvo do exército norte-americano.

 

    Eventualmente, ele foi capturado pelos soldados do General Sunderland, um inescrupuloso oficial que o colocou em uma câmara criogênica e incumbiu um outro cientista botânico, o Dr. Woodrue – disfarce assumido por um supervilão, o Homem Florônico – de estudar a criatura. A necrópsia conduzida por Woodrue revelou que o Monstro do Pântano não era resultado de uma transformação humana – como até então o próprio Monstro pensava ser – mas, sim, uma planta incorporada da consciência de Alec Holland que imitava características biológicas do morto: “Ela se lembra de ter tido ossos, então constrói para si um esqueleto de galhos. Lembra de ter músculos, e se dá músculos de fibras vegetais flexíveis. Lembra de ter tido pulmão, coração, cérebro... e tenta duplicá-los o melhor possível”, explicou Woodrue a Sunderland.

 

    Ao perceber o potencial criador de uma nova espécie a partir da fórmula de Alec Holland, o general concluiu que possuía todas as informações necessárias. E sem esperar que o seu pesquisador contratado terminasse de explicar as possibilidades decorrentes de futiras investigações, o demitiu sem hesitar: “E você Dr. Woodrue, agora que me propiciou um salto de conhecimento, é do que menos preciso. Tenho um telefonema a dar na outra sala. Cuidaremos dos papeis de término de contrato quando eu voltar” 

 

    Enraivecido pela atitude de Sunderland, Woodrue liberou o Monstro da câmara criogênica, que imediatamente procurou o general para matá-lo. Porém, agora ele sabia que aquele corpo não seria de Alec Holland; era uma planta embuída de uma consciência alheia. Isso colocou o Monstro em uma crise existencial movida por um conflito: embora desejasse resgatar o sentimento de se saber humano, sentia-se impelido a entregar-se ao modo de vida vegetal. Assim, enquanto lutava para manter sua humanidade, o seu corpo tendia a misturar-se a natureza.

 

    O conflito é representado em uma cena no melhor estilo “To be or not to be”, quando o Monstro aparece em outra dimensão dialogando com o crânio de Holland sobre o sentido imposto à sua nova existência. Cansado de lutar, o Monstro debate com a caveira de Holland — cujo apego ao amor por sua esposa, Linda, o motiva a insistir para que resistisse à tendência de se acomodar em uma vida vegetativa, renunciando a seus superpoderes e a sua pseudoconsciência humana.

 

    Enfim, o Monstro do Pântano abriu para mim uma nova perspectiva sobre os mundos dos super-heróis para além das capas voadoras e dos vilões psicopatas. Gostei de pensar na existência do Verde e dessa mitologia imperfeita que confronta o seu protetor com as exigências da vida humana. Trás cor para repensarmos a ideia da “natureza enquanto um sistema estabilizado homeostaticamente, mas descarrilhado pela arrogância humana” (ZIZEK). Uma ideia ainda muito dominante entre ecologistas mais românticos, mas que está sendo revista diante das novas hipóteses científicas sobre os fundamentos do cosmo. Talvez, se considerarmos a limitação da escala de grandeza de tempo e espaço à qual estamos acostumados a nos resumir, a natureza não seja tão perfeita e equilibrada quanto imaginamos.